"Ninguém cometeu maior erro do que aquele que não fez nada só porque podia fazer muito pouco." Edmund Burke

27.1.06

ser amigo do ambiente e poupar dinheiro

A obrigação de instalar painéis solares nos edifícios destinados a habitação, decidida ontem pelo Governo na habitual reunião de Conselho de Ministros (ver texto em baixo), vai permitir poupar mais de metade da factura de gás ou de electricidade das famílias.

A garantia é dada por Manuel Collares Pereira, investigador do Instituto Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial (INETI), que há cerca de três décadas se dedica ao estudo das energias renováveis.

As contas são simples. A energia solar, numa aplicação básica, serve essencialmente para aquecimento de águas. Este factor corresponde a cerca de 70% do consumo de gás numa habitação. Levando em linha de conta que a energia solar térmica é 80% mais barata que a electricidade ou o gás, a poupança ronda os 56%.

Mas as contas, para serem certas, têm de ter ainda em linha de conta a instalação do equipamento. "Hoje em dia, para uma família de três ou quatro pessoas, um painel solar custa à volta dos 1900 a 2000 euros", explica Collares Pereira. O investimento corresponde ao aquecimento de uma caldeira de cerca de 200/250 litros, considerada suficiente para um agregado do tamanho referido. E isto numa habitação unifamiliar, já que se se tratar de um edifício de condomínio a factura para cada habitação poderá baixar para 1500 euros, devido à economia de escala. Já uma família de 6 a 7 pessoas necessita de uma caldeira de 300 litros, cujo investimento, em termos solares, rondará os 2500 a 3000 euros. De realçar ainda que actualmente os kits solares já vêm equipados com resistências eléctricas para apoiar dias sem sol.

A amortização do investimento também está estudada. "Se estiver a substituir gás butano [de garrafa] por energia solar, o investimento está pago em 5 ou 6 anos", estima Collares Pereira. Como actualmente as melhores marcas garantem uma utilização do equipamento, sem necessidade de qualquer intervenção, de cerca de 15 anos, "estamos a falar de cerca de dez anos de energia “à borla”, explica o especialista. Se a substituição em causa for sobre electricidade ou gás natural, Manuel Collares Pereira acrescenta um ano à amortização, ou seja, entre seis a sete. Refira-se ainda que a energia solar térmica está actualmente taxada a 12% de IVA (IVA reduzido), sendo o investimento inicial passível de abatimento à colecta de IRS, até um máximo de 700 euros ou 30% dos gastos totais.

Actualmente, a energia solar térmica - a que é vulgarmente instalada em edifícios de habitação e serviços - só está preparada para colmatar as necessidades de aquecimento de águas e ambiente, mas Collares Pereira admite que, dentro de pouco tempo, se possa falar em fazer frio... através do Sol. "No INETI estamos a preparar uma tecnologia que permite substituir o compressor de electricidade que é utilizado nos frigoríficos, e estimamos que dentro de um ou dois anos isso esteja disponível", sustenta o mesmo investigador. A tecnologia já existe mas apenas aplicada a grandes infraestruturas. O desafio é pô-la ao serviço do cliente doméstico.

Outra questão é saber como é que o sector da construção vai adaptar-se à nova legislação. Recorde-se que a energia solar térmica voltou a ocupar a actualidade devido à indicação governamental de que, em breve, deverá estar pronta legislação que obrigue a que todos os edifícios novos ou requalificados tenham apoio desse género de equipamentos (ver texto nesta página). Para Manuel Collares Pereira há duas maneiras de resolver o problema. "Ou os construtores deixam os edifícios prontos para instalação de painéis ou são eles próprios que contratam com empresas do sector", sendo que a compra directa ao fabricante poderá trazer economias relevantes. No que diz respeito ao preço final para o comprador de uma fracção (apartamento), o incremento de preço é desprezível. Estamos a falar de 2000 euros, no máximo, num apartamento que pode rondar os 150 mil a 200 mil euros.